SENTIMENTOS MISTURADOS
Fui caminhar cedo pela cidade. Isso nos torna um observador da vida.
Durante o percurso, vi um cidadão idoso, talvez mais de 70 anos, empurrando um carrinho de catador de lixo. Rugas no rosto, andar pesado. Presumo que essa seja a sua rotina diária. Nem no sábado ele tem direito a descanso. A vida exige-lhe trabalho para sobreviver.
Parei e fiquei observando por alguns minutos aquele sujeito caminhar empurrando seu carrinho. Como a vida é desigual! Injusta? Não sei. Ela cobra um preço alto por nossas escolhas, ou por nossos erros na jornada.
Senti gratidão pela vida que tenho.
Mas aí chegou outro sentimento. Uma saudade doída dos meus netinhos que estão longe. Moro noutra cidade, bem longe.
Já passei dos 60, já posso aposentar; mas as circunstâncias ainda me impedem.
Não é possível ter tudo na vida. Morar numa cidade boa ou ruim, perto ou longe dos amigos, perto ou longe das pessoas que amamos, além de outras coisas que prezamos em tê-las. Mas a vida não é tão simples. Ela exige escolhas, decisões. O tempo está passando. Nem a vida lhe é garantida.
Para quem já passou dos 60, o que resta? Morar numa cidade boa , mas longe dos netos; ou numa cidade ruim, mas perto dos netos e acompanhar a infância deles? Trabalhar mais um pouco, estimando que ainda possa alcançar alguns objetivos materiais ou financeiros, ou aposentar e começar a aproveitar logo o tempo que resta, ao lado dos netos, ainda que as condições materiais exijam diminuição de seu padrão de vida, mas ter a alegria que só as crianças podem te dar?
Bate a vontade de largar tudo por aqui, ir correndo para perto das crianças. Elas alegram o coração. Isso não tem preço, tem valor inestimável; é o que se leva da vida.
A vida nunca é uma linha reta, nem é uma ciência exata. Ela tem armadilhas. Infortúnios. Alegrias. Tristezas. Vitórias. Fracassos. Acertos. Erros.
O sábio nos faz pensar: Como não correr atrás do vento?
Eis o grande dilema no crepúsculo da vida.
Juscelino Nery
Enviado por Juscelino Nery em 31/10/2026