Prisma das letras

Bem-aventurado o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento. Provérbios 3:13

Textos

Nesse momento (23 h do dia 27.04.2012), estou num voo de São Luís/MA para Manaus. Vou aproveitar o fim de semana prolongado pelo feriado do Dia do Trabalhador para visitar minha filha. Desde o momento da partida, vieram-me à memória as lembranças do meu avô.
 
Já faz muito tempo que ele me deixou. Seu fígado não resistiu ao consumo exagerado de pimenta. Sempre almoçava ou jantava com a pimenta do lado do prato. Sempre teimoso, dava jeito de pôr a malditas pimentas – malagueta ou murupi, no caldo de peixe, sua comida preferida.
 
Ele era um caboclo nascido e criado no interior do Amazonas.  E Como todo bom amazonense, gostava de comer um bom peixinho. E verdade seja dita: para quem conhece, no Amazonas estão os melhores peixes, os mais deliciosos!
 
Lembrei-me da oficina de carpintaria e marcenaria do meu avô. Quando menino, adolescente, eu ajudava nos trabalhos. O velho tinha o coração bondoso, embora tivesse seus momentos de raiva – era humano. Ajudava pessoas necessitadas. Às vezes, até as acolhia em casa.
 
Morávamos numa casa grande. Havia espaço suficiente para abrigar, volta e meia, algum forasteiro. Lembro-me de uma vez que deu abrigo e trabalho a um sujeito que apareceu na oficina pedindo ajuda. Como todo pinguço, o cara era gente boa até ficar embriagado. Não lembro bem o que aconteceu ao sujeito, mas ele foi embora, sumiu no mundo um dia e nunca mais voltou.
 
Lembro-me quando eu fazia carinho na cabeça branca do velhinho Deusdeth – esse era seu nome. Beijava-o, amava-o muito!
 
No dia que morreu, eu cuidei de tudo para o funeral, conseguimos até um ônibus para transportar familiares e amigos ao cemitério para o ato final do sepultamento. Eu não fui. Estava muito cansado e muito triste!...
 
Depois de três meses da sua morte, numa noite ao deitar pra dormir, comecei a pensar no velhinho, a lembrar de velhos e bons momentos como agora. Não resisti. Desabei em prantos. O choro da saudade. Do inconformismo, talvez, por não voltar a vê-lo nunca mais. Ele tinha me deixado. Essa era a realidade.
 
Nesses momentos de lembranças, queria tê-lo comigo, conversar com ele. Falar de minhas angústias, meus anseios, minhas tristezas, minhas felicidades, meus sentimentos, enfim.
 
Queria poder dizer: pai, eu te amo! Sim, ele era meu avô, mas era meu pai. Foi ele que me criou, educou-me. Ensinou-me princípios e valores que até hoje permanecem comigo.
 
Queria ouvir suas histórias de aventuras, quando contava na minha tenra idade, ao cair da noite. Eu e meu primo Cosmo ficávamos atentos às histórias que o velhinho contava.
 
Eram aventuras futebolísticas; ou de quando comandou uma rebelião e fuga de trabalho escravo numa fazenda ou algo parecido. Lembro quando brincava com minha filha – a bisneta, com dois ou três anos de idade.
 
Ah, meu avô! Meu velhinho! Quanta saudade sinto de você! Quero chorar. Vou resistir. Eu só queria abraçar o meu avô de novo.
 
Você tem um avô e o ama? Abrace-o. Um dia, ele não vai mais estar com você, e certamente, sentirá saudades dele. Portanto, aproveite agora, enquanto ele está aí do seu lado.
 
Vovô? Onde você está? Eu te amo!
Juscelino Nery
Enviado por Juscelino Nery em 13/05/2012
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